12 de mai. de 2008

Superlotação e tumulto na emergência do HGV

Médicos e pacientes reclamam de tratamentos desumanos
Na emergência, 186 deram entrada desde às 7h. Homem foi entubado sentado.

Por Tiago Barbosa. Foto: Marcos Pastich

“A medicina é impraticável aqui”. O que leva um médico a afirmar categoricamente a impossibilidade de exercer seu ofício? A resposta está na situação vista, ontem, na emergência do Hospital Getúlio Vargas (HGV), na Caxangá, no Recife. O número insuficiente de profissionais para atender os pacientes se somou à ausência de uma estrutura adequada para acomodar a demanda e produziu um cenário desumano: doentes à espera de atendimento ou recebendo assistência no chão, corredores intransitáveis e demora de horas para a elaboração de diagnósticos. De um lado, profissionais se desdobrando para garantir assistência a todos. Do outro, pessoas expostas a improvisos forçados pela precariedade. Imagem fornecida por um plantonista dimensiona o problema: um senhor de 51 anos com dificuldades respiratórias chegou a ser entubado enquanto estava sentado em uma cadeira de rodas porque não havia macas para deitá-lo - ele acabou falecendo.


Às 16h, o HGV registrava que 186 pacientes haviam dado entrada na emergência desde às 7h. Painel exibido próximo ao posto policial dava conta de que a ocupação do dia anterior era de 146 e de que a capacidade estava fixada em 60 pessoas. Um médico-plantonista - que preferiu manter a identidade sob sigilo - disse à Folha que não havia sequer espaço para passagem dos doentes. “Há filas duplas de maca, pessoas deixadas no chão. Se alguém precisar chegar ao médico não consegue”, observou. A quantidade de profissionais, segundo ele, abaixo do necessário, pôs em risco os atendimentos. Segundo o plantonista, apenas um auxiliar de enfermagem estava encarregado de controlar a medicação e prestar assistência a mais de 50 pacientes. A carência também se tornou obstáculo, acrescentou, para a reposição de material. “Não temos máscaras, gaze, produtos básicos. Não tem quem os reponha, já que os que fariam isso estão sobrecarregados. Sentimos falta de enfermeiros e auxiliares por aqui”.


No plantão, havia três cirurgiões, dois ortopedistas, quatro clínicos-gerais e dois cirurgiões vasculares. Segundo o profissional entrevistado pela Folha, uma quantia aquém do ideal. “Precisaríamos, no mínimo, do dobro de cirurgiões, de clínicos e do triplo de ortopedistas”, afirmou. O plantão não contava com a presença de neurocirurgiões. “Se aparecesse alguém com um acidente vascular cerebral (AVC), acidente crânio-encefálico ou traumatismo crânio-encefálico grave, não teríamos como atender”, frisou.


A denunciada falta de funcionários obrigou parentes a prestar por conta própria o socorro aos familiares. Muitos se sentavam no chão da emergência para oferecer ajuda, em meio à agonia dos pacientes e à superlotação dos corredores. Apesar de crítico, o quadro não surpreendeu o plantonista. “O que vemos hoje, na verdade, está um pouco além do usual, que já é caótico. Já atendi baleados no chão. E, quando digo no chão, é no chão mesmo, e não sobre um lençol. Revolta o governo dizer que a saúde está boa. O hospital está desmoronando”, declarou. À noite, o Raio X da unidade quebrou.



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